Do lamento de Caicó

Em por Aluisio Lacerda
Atualizado em 19 de dezembro às 10:14


Por Fernando Antônio Bezerra

Em qualquer das entradas, vindo de onde vier, se descortina as torres de Caicó, seja dos novos edifícios, seja de sua expressiva Catedral. Quem chega e gosta do lugar, logo entenderá a cidade… Caicó, se pouco fala, muito expressa por sentimentos que permeiam seus rostos e ruas. É possível saber, mesmo em qualquer entrada, se há tristeza ou alegria. De fato, Caicó não consegue esconder o que sente.

Evidentemente que há sentimentos alternados em função dos meses ou das duas estações – inverno e verão – que marcam a vida caicoense, mas a força do homem está tendo maior interferência e, não raro, deixando Caicó entristecida, amedrontada, cabisbaixa como nunca foi… Se tem inverno, Caicó é vibrante, tem cheiro e cor de vida, mas, mesmo com a seca, consegue festejar. Com crise ou sem crise, Caicó se reinventava do algodão para o boné; do doce para o sorvete; da costura para o bordado, enfim, tirando leite de vacas e pedras, vivendo da poeira e da paixão, o tempo ruim não tinha o espanto da atrocidade ou a brutalidade da tragédia. Não tinha!

Alguém, com amparada razão, dirá que em todos os tempos sempre existiu arruaças, cavilações, rixas, desordens e contravenções, inclusive, no Caicó de todos nós do passado mais distante ou próximo… Contudo, não com a frequência incontrolável de hoje; nunca por tantos motivos banais que se acumulam atualmente; nada que se compare ao desajuste do dia presente. Se é pela presença do presídio, pela degradação dos costumes, pela omissão de alguns, pelo interesse de outros ou pelo fim da era, alguma coisa precisa ser feita. Assim – triste e amedrontada – não era a terra onde Sant’Ana fez morada.

Aliás, triste, amedrontada e ferida. Recentemente tombou no chão, vítima do grave contexto de insegurança que impera em Caicó, um dos melhores filhos da cidade: Severiano Firmino de Araújo Filho. Pelo nome completo, muitos não o conheceram. Por Sevi, entretanto, uma multidão o conhecia e respeitava. Construiu ao longo de 66 anos uma vida de honradez, à custa de muito trabalho, construindo numerosa legião de amigos e exemplar reverência à família e ao bom costume da palavra como patrimônio.

Sevi, filho de Severiano Firmino de Araújo e Concessa Costa de Araújo, em 1967, ainda aos 16 anos, assumiu a liderança da família com a precoce morte do pai. Foi comerciante, caminhoneiro, voltou a ser comerciante. Foi irrequieto, trabalhou com afinco, protegeu a mãe e os irmãos, construiu o caminho para se estabelecer como vendedor de veículos e, neste ofício, o mais conhecido do Seridó. Fez negócios em outros segmentos. Tinha a sorte dos vencedores alicerçada pela conhecida disposição de trabalhar, do nascer ao pôr do sol.

Construiu credibilidade, patrimônio, boas amizades e ampliou a família. Dividiu com Ana Maria Clemente de Araújo, sua esposa, a maior das missões: trazer ao mundo e educar gente nova, com o cuidado de que Mateus, Luanda, Natália, Ana Clara, Rafaela e Heitor, como os pais, fossem reconhecidos pela honradez de práticas e gestos.

A história, portanto, foi bem conduzida por ele, com a ajuda de tantos. Tinha, em resumo, um bom norte e tudo para ter um final feliz! A história dele, como todos sabem, foi interrompida no último dia 12 de dezembro pela planejada ação de criminosos que invadiram um lar, tornaram reféns pessoas indefesas, agredindo-as com palavras e força, com fim de subtrair patrimônio de quem trabalhou e deixá-las traumatizadas, um roteiro que tem se repetido com insuportável frequência. A interrupção da história de Sevi, de modo abrupto e revoltante, trouxe tristeza à cidade. Consternou o povo. Provocou reflexão. Motivou lamentos e brados de justiça.

A família perdeu o líder e o ente mais querido; Caicó, um empreendedor que honrava o nome da família e da própria cidade em seus negócios que, aliás, iam além do Seridó. A saudade e a dor estão lamentavelmente inauguradas no seio da família de Sevi.

Mas, será que não seria oportuno diante da tragédia ocorrida consolidarmos um pacto contra a violência, começando com cada um revendo conceitos e hábitos, envolvendo instituições e autoridades, sem amarras a ideologias ou projetos eleitorais?

Penso que o lamento de Caicó deveria ter consequências. A cidade de crença, que acredita no lugar dos justos no horizonte que a fé nos faz enxergar, precisa reencontrar a alegria da paz.


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