Geraldo Azevedo e Alceu Valença – O difícil começo (parte I)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 23 de outubro às 19:08


As personalidades e as origens sociais de Geraldo Azevedo e de Alceu Valença são bastante diferentes. Mesmo assim, suas carreiras convergiram em diversos pontos de suas vidas.
A música começou primeiro para Geraldo Azevedo. Nascido em 1945 no distrito de Jatobá, município de Petrolina (PE), já aos cinco anos de idade dedilhava um violão rústico, construído pelo próprio pai.
Na adolescência, a bossa nova entra na sua vida. Nada surpreendente. Tudo o que separa Petrolina de Juazeiro, Bahia, a terra de João Gilberto é o rio São Francisco e o grande sucesso de João Gilberto naturalmente repercutiu fortemente na cidade vizinha. Em pouco tempo, Geraldo apresentava o programa Por Falar em Bossa Nova na rádio local e era convidado para o grupo Sambossa.
Aos dezoito anos, mudou-se para Recife. O objetivo era fazer o curso científico e, depois, o vestibular de arquitetura, trabalhando em escritório como desenhista. Mas a música prosseguia seu trabalho de sedução e, aos poucos, Geraldo foi se envolvendo no meio musical de Recife. E, na medida em que aperfeiçoava seus dotes de violonista, mais enredado ia ficando.
Participa dos grupos Construção e Raiz. O Construção era um grupo musical, do qual participavam também Naná Vasconcelos e Teca Calazans, essa última uma grande pesquisadora do folclore. Já o Raiz reunia pessoas do teatro, literatura e música. Algumas dessas pessoas eram também do MCP (Movimento de Cultura Popular), um precursor dos Centros de Cultura da Popular da UNE, um foco de resistência à ditadura.
A primeira música que Geraldo concluiu foi o frevo Aquela Rosa, uma parceria com Carlos Fernando. A música venceu a primeira Feira Musical do Nordeste e chamou a atenção para ele. Dentre as pessoas que tiveram sua atenção despertada estava a cantora Eliana Pittman.
Em temporada no Recife, a cantora convidou Geraldo para ser parte de sua trupe. Ele não se entusiasmou, mas os amigos insistiram que era uma grande oportunidade, se cotizaram para ajudá-lo na mudança e lá se foi Geraldinho para o Rio de Janeiro.
Mas as diferenças entre as visões musicais dos dois era grande e o violonista ficou apenas oito meses com Eliana. Um tempo de vacas ainda mais magras estava começando. Airton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos, o acolheu em seu apartamento. Geraldo chegou a tocar com o quinteto, mas a música clássica não era mesmo a sua praia.
Em 1968, Geraldo Vandré formou o Quarteto Livre e convidou Geraldo Azevedo para participar. O quarteto era formado por Geraldo, Naná Vasconcelos, Nelson Ângelo e Franklin da Flauta. Geraldo chegou a iniciar uma parceria com Vandré na música Canção da Despedida. Mas no final do ano veio o AI-5 e a repressão militar intensificou-se. Vandré, Caetano, Gil, Chico Buarque, Carlos Lyra e muitos outros artistas optaram por deixar o país no ano seguinte. A música seria concluída por Vandré no exterior.
Geraldo Azevedo ficou e voltou a trabalhar como desenhista. Apesar de sua amizade com militantes da esquerda e sua participação em reuniões clandestinas, cujo objetivo principal era a luta contra a censura, ele nunca fora filiado a organizações políticas e tinha posição contrária ao enfrentamento do regime militar pelas armas.
Mesmo assim, Geraldo e sua mulher foram presos durante 41 dias na Ilha das Flores e liberados sem que nenhuma acusação formal fosse formulada. O impacto psicológico da prisão foi tamanho que Geraldo resolveu desistir da profissão de músico. Dedicou-se ao seu emprego como desenhista. A música era página virada.
Foi aí que apareceu Alceu Valença. Ele e Geraldo mal tinham se conhecido enquanto moravam no Recife. Agora, recém-chegado ao Rio, Valença estava disposto a enfrentar uma carreira como músico e queria a colaboração do conterrâneo.
Alceu Valença nasceu em São Bento do Uma, em 1946. Nunca passou privações financeiras. Seu pai era fazendeiro e tinha uma pequena indústria de laticínios e era uma figura socialmente importante. Um ex-deputado constituinte. As primeiras ligações de Alceu com a música foram com cantadores, repentistas e sanfoneiros. Além do rádio.
Mas enquanto a família de Geraldinho incentivava o seu interesse pela música, o pai de Alceu não era nada encorajador. Para ele, a profissão de artista era “para bêbados e desocupados”. Desse modo, só aos 15 anos Alceu ganhou seu primeiro violão. Um presente da mãe, às escondidas do pai. O segundo violão foi presente de um primo, advogado. Um Di Giorgio de primeira linha. Um cliente lhe oferecera o violão para quitar uma dívida.
O presente aguçou o apetite de Alceu pela música, e ele passou a estudar com afinco. Mas não era fácil vencer a resistência paterna e Alceu começou a trabalhar como jornalista – deixou quando veio a exigência de diploma – e passou no vestibular de direito. Foi como estudante de direito que surgiu a chance de um estágio de três meses em Harvard.
Alceu foi, mas seu interesse no curso era mínimo. Um completo desconhecido, deixou de lado a timidez e foi para as praças frequentadas por hippies e, violão em punho, pôs-se a tocar baiões, cocos, maracatus e o que mais lhe viesse à cabeça. Chegou a ganhar uma simpática matéria em um jornal local que o chamava de “Bob Dylan brasileiro”.
O curso em Harvard não contribuiu em nada para o futuro advogado. Só fez reforçar a convicção que seu futuro estava na música. Não era fácil para Alceu se enturmar no meio musical do Recife. Para a turma conservadora, Alceu, cabeludo e barbudo, só podia ser um drogado. Para os adeptos do barato, um cara que não usava droga nenhuma, não tinha outra classificação: um careta.
Sem muito espaço no Recife e com o país ainda vivendo a era dos festivais, Alceu decidiu partir para o Rio de Janeiro. E lá procurou o desencantado Geraldo Azevedo. Alceu não se deu por vencido quando Geraldo lhe contou que estava desistindo da música. Lembrou Geraldo de um encontro fugaz que tiveram, quando ele ainda estava no Recife, mostrou suas composições, elogiou o trabalho dele. Sua insistência foi tamanha que, mesmo relutante, Geraldo concordou em tentar outra vez.

 

 

A parceria entre Geraldo Azevedo e Vandré resumiu-se a esta música. O exílio de Vandré interrompeu a colaboração.


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