Geraldo Azevedo e Alceu Valença – O Difícil Começo (Final)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 30 de outubro às 21:40


Alceu conseguiu convencer Geraldo Azevedo para o retorno às lides musicais e começaram uma maratona de shows, para públicos pequenos. Conseguiram, às duras penas, um contrato para gravar um disco pela gravadora Copacabana. Apesar do nome da gravadora, o estúdio de gravação era em São Paulo, para onde viajavam nos fins de semana, dormindo em apartamentos de amigos, às vezes dividindo, os dois, o mesmo sofá.
O disco passou em branco. Aí, foi a vez de Alceu Valença pensar em largar tudo e voltar para criar galinhas em São Bento do Uma. Mas logo desistiu de desistir. Resolveram tentar outro caminho. Sérgio Ricardo tinha idealizado, pouco antes, o Disco de Bolso do Pasquim. O projeto, respaldado pelo semanário O Pasquim, então em fase muito popular, consistia no lançamento de um disco compacto com um artista famoso em um lado e um iniciante do lado oposto. Já tinham sido lançados os discos com Tom Jobim e João Bosco (então iniciante) e Caetano Veloso e Fagner.
Alceu Valença e Geraldo Azevedo tinham a expectativa de ser uma opção para o lado B do próximo Disco de Bolso. Foi com essa esperança que foram procurar Sérgio Ricardo. Assim que Sérgio Ricardo olhou para Alceu Valença, exclamou: “Você vai ser o Espantalho!” Alceu não entendeu nada: “Espantalho? Eu?”.
É que Sérgio Ricardo conversava com um amigo sobre a retomada de um antigo projeto cinematográfico, chamado A Noite do Espantalho e a figura exótica de Alceu preenchia seus requisitos. O almejado Disco de Bolso jamais saiu, mas o filme sim. Geraldo Azevedo também foi contratado para fazer um papel secundário e para trabalhar como diretor musical. Foi para esse papel que Geraldo deixou crescer a barba, que nunca mais tirou.
Como a locação do filme programada para Fazenda Nova, lá se foram Geraldo e Alceu, em pleno 1973, de volta para Pernambuco. Um fato curioso: Alceu e Wilson Moura, outro ator com um papel importante, não se entenderam durante as filmagens. Naquele período havia um programa de aproximação entre os Estados Unidos e o Brasil, com a criação de estados-irmãos.
O Rio Grande do Norte, por exemplo, tinha o Maine como seu estado-irmão. O estado-irmão de Pernambuco era a Georgia e, coincidindo com o final das filmagens, havia uma delegação americana visitando o estado. Em um gesto de cortesia, a delegação americana ofereceu um almoço à equipe cinematográfica. Durante o almoço, Wilson tentou fazer as pazes com Alceu, que não aceitou. Houve um bate-boca que logo degenerou em uma franca troca de sopapos. Tudo isso na frente do atônito governador da Georgia e futuro presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.
Mas este breve retorno de Geraldo e Alceu para Pernambuco teve profundas repercussões na música, principalmente na de Alceu Valença. Como conta José Teles, no seu livro Do Frevo ao Manguebeat, foi quando Alceu conheceu uma música de Lailson Ferreira, chamada Alagoas. A música, feita como uma brincadeira, misturava ritmos nordestinos com o rock. Para Alceu, foi uma revelação. Foi a partir daí que ele plugou a guitarra e eletrificou a música nordestina.
Entusiasmado, compôs um forrock (Vou danado pra Catende), recrutou os melhores músicos que conseguiu em Pernambuco (Robertinho do Recife, Lula Côrtes, Ivinho, Zé Ramalho, Zé da Flauta e Paulo Rafael) e inscreveu no Festival Abertura. A música impressionou os jurados pela originalidade embora não tenha levado o primeiro prêmio. A música deu prestígio e rendeu um contrato com a gravadora Som Livre para Alceu, mas as vendas foram modestas.
Os tempos difíceis ainda não tinham terminado. Principalmente para Geraldo. Geraldo também conseguiu algum sucesso e emplacou uma música, Caravana, na trilha sonora da novela Gabriela. Mas aí a repressão mostrou de novo a sua cara. Geraldo foi outra vez preso, por sua militância contra a censura. A prisão foi mais curta, menos de duas semanas, mas desta vez ele foi duramente torturado. Ao contrário do que aconteceu na primeira prisão, dessa vez o efeito sobre o compositor foi o de fortalecer a sua determinação de seguir o seu caminho como músico.
Enquanto isso, decepcionado com sua carreira no Brasil, Alceu resolveu tentar a sorte em Paris. Conseguiu marcar alguns shows, um dos quais recebeu uma crítica favorável no Le Monde. Alceu resolveu uma estratégia que já tinha usado no Brasil. Fez fotocópias da matéria e, junto com a namorada e Paulo Rafael, saltavam as catracas do metrô para distribuir as cópias, promovendo o show.
Findaram presos por panfletagem ilegal. A namorada de Alceu tentou dar uma carteirada, brandindo a sua ascendência norte-americana. O resultado foi que Alceu e Paulo logo foram liberados enquanto que ela teve que curtir um período mais prolongado no xilindró.
Alceu também foi para Montreux, tentar uma colocação no famoso festival de jazz. Foram barrados. O mesmo aconteceu no Festival de Lyon. Mas aí Anelisa, a tal namorada de Alceu, teve uma ideia. Pediu a cada músico contratado para ceder um minuto do seu tempo. Somando todos os minutos cedidos, conseguiu quarenta e cinco minutos para Alceu.
No final de 1979, Alceu desistiu de sua carreira europeia. Até porque não aguentava mais tanta comida brasileira. Segundo ele, quase todo dia recebia um convite para almoçar com um brasileiro. E, dizia, quando um brasileiro que mora no exterior convida outro para almoçar, o cardápio é quase imutável: feijoada e caipirinha.
Alceu voltou em boa hora. Em 1980, com um novo contrato pela Ariola, conseguiu um sucesso marcante com Coração Bobo, inspirada por Jackson do Pandeiro, sempre uma referência importante na música de Valença. O disco seguinte marcou de vez a passagem de Alceu para o time dos grandes vendedores. O disco Cavalo de Pau vendeu um milhão e meio de cópias, puxado pelos sucessos de Tropicana e de Como dois animais. Alceu se tornava o músico pernambucano mais bem sucedido de sua geração.
Geraldo Azevedo também se firmou. Nunca fez o mesmo sucesso de Alceu, em termos de vendagens, mas músicas como Dia Branco, Dona da minha cabeça, Bicho de sete cabeças, Moça bonita e outras são parte permanente do cancioneiro brasileiro. Os tempos de vacas magras ficaram para trás. E embora sigam carreiras independentes, a amizade entre eles permanece. Com um encontro para comemorar, de vez em quando.

 


Comentários

Deixar uma Resposta