A Metamorfose de Comme d`Habitude em My Way (Parte I)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 13 de dezembro às 00:23


Corre o ano de 1967. O compositor francês Jacques Revaux está à procura de um cantor para gravar a música For Me, uma canção com título e letra em inglês que ele acaba de compor. Oferece a música a Michel Sardou, que a recusa. Procura, em sequência, Mireille Mathieu, Hugues Aufray e Claude François, sempre obtendo um não por resposta. Finalmente, Hervé Villard se compromete a gravar a música. Mas apenas como o lado B de um futuro single.
Meses depois, não tendo a música ainda sido gravada, Jacques Revaux volta a se encontrar com Claude François e conversa outra vez sobre a música. Afinal, François era muito mais popular do que Hervé Vilard. Desta vez, Revaux encontra um François mais receptivo, mas que sugere algumas mudanças na melodia e uma alteração completa na letra. Revaux aceita. Claude François está em processo de separação da também cantora France Gall, e a letra que ele escreve, e que depois foi burilada por Gilles Thiebault, fala da rotina e da desilusão que acompanha um amor que perdeu o viço. Assim nasce Comme d’Habitude (Como Sempre), com uma letra que segue a mesma linha de Cotidiano, de Chico Buarque.
O próximo passo foi sustar a gravação de For Me, a primeira versão da música. Não foi tão difícil convencer Hervé Vilard, um cantor que ficou conhecido no Brasil pela música Capri, C’est Fini, a desistir da gravação. Ele não era um entusiasta da música, de qualquer modo.
Claude François, do mesmo modo que Vilard, nunca foi um grande sucesso fora da França, como foram Edith Piaf, Charles Aznavour, Georges Brassens ou o franco-belga Jacques Brel. A combinação de músicas com letras de qualidade garantia a estes últimos uma reputação internacional. Mas na França, Claude François era um fenômeno entre o público jovem, ligado no pop rock. Claude era parecido com o Roberto Carlos do tempo da Jovem Guarda. Seu maior rival era Johnny Halliday. Rival e desafeto.
Com um notável senso de marketing, Claude foi o primeiro cantor francês a criar um selo musical próprio e a organizar um fã clube, Ele também comprou uma revista dedicada ao público jovem. A sua estratégia de marketing foi tão bem sucedida que ele vendeu, ao todo, 67 milhões de discos, de acordo com Florent-Emilio Siri, o diretor de cinema que fez o filme Cloclo (no Brasil, My Way – O Mito Além da Música), baseado na vida de Claude que morreu aos 39 anos, quando cometeu a imprudência de tentar trocar uma lâmpada queimada, enquanto estava em uma banheira, e foi fulminado por uma descarga elétrica.
Comme d’Habitude não chegou a ser um grande sucesso. Tocou durante algumas semanas nas rádios e, gradativamente, as radiotransmissões foram escasseando até praticamente desaparecerem. Mas aconteceu de, no curto período em que a música foi divulgada, Paul Anka estar de férias no sul da França.
Paul Anka tinha uma história peculiar. Nascido no Canadá, foi para New York ainda adolescente, decidido a fazer carreira no meio musical. Aos quinze anos, convenceu o produtor e arranjador Don Costa a ouvir algumas de suas músicas. Costa gostou e resolveu gravar a canção Diana, que Anka tinha composto inspirado em uma paixão não correspondida por Diana Ayoub, uma secretária da Polícia Montada. Diana tinha dezoito anos e Paul Anka quinze (I’m so young and you’re so old / This, my darling, I’ve been told).
O sucesso foi instantâneo e Anka virou a coqueluche do público adolescente. Nos anos seguintes, Paul Anka continuou alimentando seu público com sucessos como You Are My Destiny, Put Your Head on My Shoulder e Puppy Love, entre outras, mas com o tempo foi percebendo que aquele filão um dia se esgotaria e que era necessário trilhar outros caminhos.
Foi com esse propósito que começou a compor músicas para o cinema (por exemplo, o épico de guerra O Dia Mais Longo da História), para a televisão (o tema de The Tonight Show) e para outros cantores. She’s a Lady, um dos maiores sucessos de Tom Jones é uma música de Paul Anka.
Foi assim, com os ouvidos de um negociante, que Paul Anka ouviu Comme d’Habitude. Anka depois declarou que achou a gravação uma titica, mas viu possibilidades na música. Por isso, foi para Paris negociar os direitos internacionais da música. Conseguiu um excelente acordo. Os direitos lhe foram cedidos a custo zero (outros dizem que Anka pagou um dólar).
A primeira vista, pode parecer estranho alguém ceder os direitos de publicação de uma música a custo zero. Mas não é tão raro assim. Pelos regulamentos de direitos autorais válidos em grande parte do mundo, quando uma música é tocada na mídia, um valor é pago. Metade desse valor vai para o detentor dos direitos da música. A outra metade para os compositores. O cantor e a gravadora não recebem nesse caso. A lei admite que eles já se beneficiam da divulgação, que pode render contatos para shows, no caso do cantor, e resultar em venda, para o disco.
Os autores devem ter raciocinado que as possibilidades comerciais da música na França estavam esgotadas e que ainda poderiam obter lucro dos 37,5% dos royalties de uma eventual versão internacional. Isso porque Anka, ou quem quer que fizesse a letra, em inglês ou outra língua, também iria morder a parte dos compositores.
Uma tentativa prévia de versão da música já tinha ocorrido. O empresário de um jovem e desconhecido músico inglês, chamado David Bowie, lhe pediu pra fazer uma versão da música. Bowie fez Even a Fool Learns to Love. Mas o empresário não gostou e a versão foi arquivada. Com toda razão, acrescentou Bowie anos depois. Na sua fase Ziggy Stardust, Bowie usaria fragmentos desse seu esforço na canção Life in Mars.
Quando Paul Anka voltou para os Estados Unidos não tinha a menor ideia do que fazer com aquela canção. Assim, colocou-a em uma gaveta e dedicou sua atenção a outros assuntos, esperando que alguma inspiração por fim surgisse. A oportunidade veio quando ele foi convidado por Frank Sinatra para jantar.


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