A metamorfose de Comme d`Habitude em My Way (Final)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 18 de dezembro às 22:50


A ligação de Paul Anka com Frank Sinatra não era nova. Muito cedo Anka adotara Las Vegas como seu porto principal. E o Rat Pack era uma força em Las Vegas. O Rat Pack original era formado por Humphrey Bogart e sua turma. Quem os batizou foi Lauren Bacall, a mulher de Bogart, quando um dia, irritada com eles, detonou: Vocês são um bando de ratos.
O apelido pegou de imediato. Tempos depois, com Humphrey Bogart já fora do cenário, Sinatra apropriou-se do título para a sua própria turma. O núcleo duro do Rat Pack era Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr. O Rat Pack ampliado abrigava outras pessoas, como Peter Lawford, Shirley McLaine e Angie Dickinson. E havia, digamos, membros honorários, como Paul Anka e Vic Damone.
Para o Rat Pack, Paul Anka, bem mais jovem, era Kid, como constava no seu roupão, que Sinatra mandava confeccionar com o apelido de cada um. Anka não partilhava do entusiasmo do trio principal do Rat Pack por bebidas, cigarros e peripécias sexuais, mas mesmo assim, ou apesar disso, era bem acolhido no grupo.
Assim, não foi uma surpresa quando veio o convite de Sinatra para jantarem juntos. Anka estava em um show na Flórida, aonde Sinatra participava da filmagem de Tony Rome. Durante o jantar, Sinatra revelou: Kid, para mim chega. Eu vou gravar mais um álbum e pronto. Sinatra queixou-se da vida e de repente lembrou-se: Ei, Kid, você nunca fez aquela música.
Sinatra estava tendo dificuldades com lidar com o cenário musical de então. O domínio do rock, que ele definia como a marcha marcial de todos os delinquentes juvenis na face da terra, não dava sinais de arrefecimento. O gerenciamento dos cassinos de Las Vegas estava mudando das mãos da máfia italiana, que concedia grandes privilégios a Sinatra, para a mão de pessoas como Howard Hughes, com regras muito mais rígidas. E o próprio Sinatra vinha sendo importunado pelo FBI, por conta das alardeadas conexões com os mafiosos de Chicago.
Aquela música a que Sinatra aludiu era uma promessa, nunca cumprida, de Paul Anka de compor uma música para ele. Anka, meio encabulado, respondeu que ia fazer o possível. E Sinatra encerrou: Não leve muito tempo.
A relutância de Anka fazia sentido. As músicas que Anka tinha composto até então não tinham nada a ver com as canções que Sinatra cantava. Esse era o motivo de ele nunca ter alimentado Sinatra com uma de suas músicas. Afinal, quem não queria ter uma música gravada por The Voice?
Paul Anka não tinha a menor ideia de como sair deste imbróglio. Foram muitos dias em que ficou matutando. Até que em uma noite chuvosa, dedilhando a melodia de Comme d’Habitude, lhe ocorreu o verso And now the end is near, and so I face the final curtain. E, com este verso, veio a ideia do que precisava fazer: personificar a figura do Frank Sinatra que agora abandonava os palcos e fazer uma espécie de retrato da sua vida.
Paul Anka, em sua autobiografia, relata que fez uma letra em tons chauvinistas, narcisistas, grandiosos e autocentrados. Ele usou versos que, admitiu, apenas manteve porque a música era para Frank Sinatra. Tais como I ate it up and split it out. Algo como eu comi tudo e cuspi de volta. Ele traçou o perfil de Frank Sinatra como ele o enxergava. Eram cinco horas da manhã quando ele terminou.
Dias depois, Anka levou a fita para Sinatra. Depois de ouvi-la, ele apenas comentou: Ficou legal, Kid. Vamos em frente. Mas, diz Anka, conhecendo-o bem, eu sabia que ele gostara muito.
My way foi gravada no dia 30 de dezembro de 1968. A música não impressionou muito na ocasião. Alcançou apenas o 27º lugar na parada de sucessos da Billboard. O tempo mostrou que a canção não seria uma velocista, correndo com enorme velocidade em trajeto curto, mas que estava mais para fundista, impondo-se aos poucos, em corrida de longa duração. Isso ficou ainda mais claro na parada britânica. Sua colocação máxima foi o 5º posto, mas permaneceu entre as 40 músicas mais tocadas durante 75 semanas consecutivas. Uma marca a ser batida.
A prometida despedida de Frank Sinatra só ocorreu no dia 13 de junho de 1971, em um evento beneficente em Hollywood. My Way era a última música da programação. Mas Sinatra voltou para um bis e cantou Angel Eyes, uma pérola do seu repertório romântico. A escolha pode ter sido porque o cantor não quis que sua última imagem fosse contando bravatas, o que My Way na realidade é.
Todos sabemos que a aposentadoria pouco durou. Em 1973, Frank já estava de volta, com Ol’ Blue Eyes Is Back. E Paul Anka estava lá, outra vez, com uma canção para saudar a desaposentadoria do amigo: Let me try again.
Frank Sinatra disse certa vez a Mia Farrow que nenhuma música tinha feito tanto por sua carreira quanto My Way. Uma benção e uma maldição. Pois Sinatra nunca mais conseguiu se livrar da música, que passou a ser uma exigência dos fãs, para desespero do cantor, que várias vezes declarou que a música era uma penitência. Cante a mesma música por tantos anos para ver se você ainda gosta dela, afirmou. Bem, Mick Jagger canta Satisfaction há exatos cinquenta anos e ninguém ainda o flagrou reclamando.
A RCA, a gravadora de Paul Anka, ficou furiosa quando soube que a canção tinha sido cedida para Frank Sinatra. Anka defendeu-se dizendo que compunha músicas, mas que necessariamente não era o intérprete mais adequado para elas. Mas pouco tempo depois não resistiu e também gravou a música.
Dezenas de versões foram gravadas. Nenhuma delas chegou a abalar a popularidade da versão de Sinatra, a de Elvis Presley entre elas. A mais inusitada foi, talvez, a de Sid Vicious, do grupo punk Sex Pistols, que Martin Scorcese usou na cena final do filme Os Bons Companheiros. Outra gravação exótica foi a do ator Christopher Lee.
A música, com seu conteúdo bravateiro, gerou fãs que se identificaram com o tom “fiz tudo do meu jeito.” Conta-se que o sanguinário ditador Milosevic ouvia a música em alto volume enquanto aguardava o julgamento por crimes contra a humanidade. O ditador Kadhafi também se identificava com a letra. E a música foi tocada por uma banda militar quando o chanceler alemão Gerhard Schroeder deixou o seu posto em 2005.
My Way é a canção mais escolhida para tocar em serviços fúnebres, na Inglaterra. E um dos epitáfios mais requisitados, nos Estados Unidos, é I did it my way. Parece que o número de pessoas que acreditam ter tido uma personalidade muito marcante parece ser bem maior do que se imagina. Frank Sinatra não caiu nessa esparrela. No seu túmulo ele mandou colocar a esperançosa inscrição de que o melhor ainda está por vir (the best is yet to come).
Finalmente, mas não menos importante. Gorbachev visitava a Finlândia quando, no dia 25 de outubro de 1989, o seu porta-voz, Gerasimov, pela primeira vez anunciou que a União Soviética agora se pautava pela doutrina Sinatra, significando que os países do Pacto de Varsóvia eram livres para fazer as coisas do seu próprio jeito. Dezesseis dias depois, caía o Muro de Berlim.


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