Recesso de Natal. Próxima postagem 08.01.17

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 25 de dezembro às 20:49



A metamorfose de Comme d`Habitude em My Way (Final)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 18 de dezembro às 22:50


A ligação de Paul Anka com Frank Sinatra não era nova. Muito cedo Anka adotara Las Vegas como seu porto principal. E o Rat Pack era uma força em Las Vegas. O Rat Pack original era formado por Humphrey Bogart e sua turma. Quem os batizou foi Lauren Bacall, a mulher de Bogart, quando um dia, irritada com eles, detonou: Vocês são um bando de ratos.
O apelido pegou de imediato. Tempos depois, com Humphrey Bogart já fora do cenário, Sinatra apropriou-se do título para a sua própria turma. O núcleo duro do Rat Pack era Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr. O Rat Pack ampliado abrigava outras pessoas, como Peter Lawford, Shirley McLaine e Angie Dickinson. E havia, digamos, membros honorários, como Paul Anka e Vic Damone.
Para o Rat Pack, Paul Anka, bem mais jovem, era Kid, como constava no seu roupão, que Sinatra mandava confeccionar com o apelido de cada um. Anka não partilhava do entusiasmo do trio principal do Rat Pack por bebidas, cigarros e peripécias sexuais, mas mesmo assim, ou apesar disso, era bem acolhido no grupo.
Assim, não foi uma surpresa quando veio o convite de Sinatra para jantarem juntos. Anka estava em um show na Flórida, aonde Sinatra participava da filmagem de Tony Rome. Durante o jantar, Sinatra revelou: Kid, para mim chega. Eu vou gravar mais um álbum e pronto. Sinatra queixou-se da vida e de repente lembrou-se: Ei, Kid, você nunca fez aquela música.
Sinatra estava tendo dificuldades com lidar com o cenário musical de então. O domínio do rock, que ele definia como a marcha marcial de todos os delinquentes juvenis na face da terra, não dava sinais de arrefecimento. O gerenciamento dos cassinos de Las Vegas estava mudando das mãos da máfia italiana, que concedia grandes privilégios a Sinatra, para a mão de pessoas como Howard Hughes, com regras muito mais rígidas. E o próprio Sinatra vinha sendo importunado pelo FBI, por conta das alardeadas conexões com os mafiosos de Chicago.
Aquela música a que Sinatra aludiu era uma promessa, nunca cumprida, de Paul Anka de compor uma música para ele. Anka, meio encabulado, respondeu que ia fazer o possível. E Sinatra encerrou: Não leve muito tempo.
A relutância de Anka fazia sentido. As músicas que Anka tinha composto até então não tinham nada a ver com as canções que Sinatra cantava. Esse era o motivo de ele nunca ter alimentado Sinatra com uma de suas músicas. Afinal, quem não queria ter uma música gravada por The Voice?
Paul Anka não tinha a menor ideia de como sair deste imbróglio. Foram muitos dias em que ficou matutando. Até que em uma noite chuvosa, dedilhando a melodia de Comme d’Habitude, lhe ocorreu o verso And now the end is near, and so I face the final curtain. E, com este verso, veio a ideia do que precisava fazer: personificar a figura do Frank Sinatra que agora abandonava os palcos e fazer uma espécie de retrato da sua vida.
Paul Anka, em sua autobiografia, relata que fez uma letra em tons chauvinistas, narcisistas, grandiosos e autocentrados. Ele usou versos que, admitiu, apenas manteve porque a música era para Frank Sinatra. Tais como I ate it up and split it out. Algo como eu comi tudo e cuspi de volta. Ele traçou o perfil de Frank Sinatra como ele o enxergava. Eram cinco horas da manhã quando ele terminou.
Dias depois, Anka levou a fita para Sinatra. Depois de ouvi-la, ele apenas comentou: Ficou legal, Kid. Vamos em frente. Mas, diz Anka, conhecendo-o bem, eu sabia que ele gostara muito.
My way foi gravada no dia 30 de dezembro de 1968. A música não impressionou muito na ocasião. Alcançou apenas o 27º lugar na parada de sucessos da Billboard. O tempo mostrou que a canção não seria uma velocista, correndo com enorme velocidade em trajeto curto, mas que estava mais para fundista, impondo-se aos poucos, em corrida de longa duração. Isso ficou ainda mais claro na parada britânica. Sua colocação máxima foi o 5º posto, mas permaneceu entre as 40 músicas mais tocadas durante 75 semanas consecutivas. Uma marca a ser batida.
A prometida despedida de Frank Sinatra só ocorreu no dia 13 de junho de 1971, em um evento beneficente em Hollywood. My Way era a última música da programação. Mas Sinatra voltou para um bis e cantou Angel Eyes, uma pérola do seu repertório romântico. A escolha pode ter sido porque o cantor não quis que sua última imagem fosse contando bravatas, o que My Way na realidade é.
Todos sabemos que a aposentadoria pouco durou. Em 1973, Frank já estava de volta, com Ol’ Blue Eyes Is Back. E Paul Anka estava lá, outra vez, com uma canção para saudar a desaposentadoria do amigo: Let me try again.
Frank Sinatra disse certa vez a Mia Farrow que nenhuma música tinha feito tanto por sua carreira quanto My Way. Uma benção e uma maldição. Pois Sinatra nunca mais conseguiu se livrar da música, que passou a ser uma exigência dos fãs, para desespero do cantor, que várias vezes declarou que a música era uma penitência. Cante a mesma música por tantos anos para ver se você ainda gosta dela, afirmou. Bem, Mick Jagger canta Satisfaction há exatos cinquenta anos e ninguém ainda o flagrou reclamando.
A RCA, a gravadora de Paul Anka, ficou furiosa quando soube que a canção tinha sido cedida para Frank Sinatra. Anka defendeu-se dizendo que compunha músicas, mas que necessariamente não era o intérprete mais adequado para elas. Mas pouco tempo depois não resistiu e também gravou a música.
Dezenas de versões foram gravadas. Nenhuma delas chegou a abalar a popularidade da versão de Sinatra, a de Elvis Presley entre elas. A mais inusitada foi, talvez, a de Sid Vicious, do grupo punk Sex Pistols, que Martin Scorcese usou na cena final do filme Os Bons Companheiros. Outra gravação exótica foi a do ator Christopher Lee.
A música, com seu conteúdo bravateiro, gerou fãs que se identificaram com o tom “fiz tudo do meu jeito.” Conta-se que o sanguinário ditador Milosevic ouvia a música em alto volume enquanto aguardava o julgamento por crimes contra a humanidade. O ditador Kadhafi também se identificava com a letra. E a música foi tocada por uma banda militar quando o chanceler alemão Gerhard Schroeder deixou o seu posto em 2005.
My Way é a canção mais escolhida para tocar em serviços fúnebres, na Inglaterra. E um dos epitáfios mais requisitados, nos Estados Unidos, é I did it my way. Parece que o número de pessoas que acreditam ter tido uma personalidade muito marcante parece ser bem maior do que se imagina. Frank Sinatra não caiu nessa esparrela. No seu túmulo ele mandou colocar a esperançosa inscrição de que o melhor ainda está por vir (the best is yet to come).
Finalmente, mas não menos importante. Gorbachev visitava a Finlândia quando, no dia 25 de outubro de 1989, o seu porta-voz, Gerasimov, pela primeira vez anunciou que a União Soviética agora se pautava pela doutrina Sinatra, significando que os países do Pacto de Varsóvia eram livres para fazer as coisas do seu próprio jeito. Dezesseis dias depois, caía o Muro de Berlim.


A Metamorfose de Comme d`Habitude em My Way (Parte I)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 13 de dezembro às 00:23


Corre o ano de 1967. O compositor francês Jacques Revaux está à procura de um cantor para gravar a música For Me, uma canção com título e letra em inglês que ele acaba de compor. Oferece a música a Michel Sardou, que a recusa. Procura, em sequência, Mireille Mathieu, Hugues Aufray e Claude François, sempre obtendo um não por resposta. Finalmente, Hervé Villard se compromete a gravar a música. Mas apenas como o lado B de um futuro single.
Meses depois, não tendo a música ainda sido gravada, Jacques Revaux volta a se encontrar com Claude François e conversa outra vez sobre a música. Afinal, François era muito mais popular do que Hervé Vilard. Desta vez, Revaux encontra um François mais receptivo, mas que sugere algumas mudanças na melodia e uma alteração completa na letra. Revaux aceita. Claude François está em processo de separação da também cantora France Gall, e a letra que ele escreve, e que depois foi burilada por Gilles Thiebault, fala da rotina e da desilusão que acompanha um amor que perdeu o viço. Assim nasce Comme d’Habitude (Como Sempre), com uma letra que segue a mesma linha de Cotidiano, de Chico Buarque.
O próximo passo foi sustar a gravação de For Me, a primeira versão da música. Não foi tão difícil convencer Hervé Vilard, um cantor que ficou conhecido no Brasil pela música Capri, C’est Fini, a desistir da gravação. Ele não era um entusiasta da música, de qualquer modo.
Claude François, do mesmo modo que Vilard, nunca foi um grande sucesso fora da França, como foram Edith Piaf, Charles Aznavour, Georges Brassens ou o franco-belga Jacques Brel. A combinação de músicas com letras de qualidade garantia a estes últimos uma reputação internacional. Mas na França, Claude François era um fenômeno entre o público jovem, ligado no pop rock. Claude era parecido com o Roberto Carlos do tempo da Jovem Guarda. Seu maior rival era Johnny Halliday. Rival e desafeto.
Com um notável senso de marketing, Claude foi o primeiro cantor francês a criar um selo musical próprio e a organizar um fã clube, Ele também comprou uma revista dedicada ao público jovem. A sua estratégia de marketing foi tão bem sucedida que ele vendeu, ao todo, 67 milhões de discos, de acordo com Florent-Emilio Siri, o diretor de cinema que fez o filme Cloclo (no Brasil, My Way – O Mito Além da Música), baseado na vida de Claude que morreu aos 39 anos, quando cometeu a imprudência de tentar trocar uma lâmpada queimada, enquanto estava em uma banheira, e foi fulminado por uma descarga elétrica.
Comme d’Habitude não chegou a ser um grande sucesso. Tocou durante algumas semanas nas rádios e, gradativamente, as radiotransmissões foram escasseando até praticamente desaparecerem. Mas aconteceu de, no curto período em que a música foi divulgada, Paul Anka estar de férias no sul da França.
Paul Anka tinha uma história peculiar. Nascido no Canadá, foi para New York ainda adolescente, decidido a fazer carreira no meio musical. Aos quinze anos, convenceu o produtor e arranjador Don Costa a ouvir algumas de suas músicas. Costa gostou e resolveu gravar a canção Diana, que Anka tinha composto inspirado em uma paixão não correspondida por Diana Ayoub, uma secretária da Polícia Montada. Diana tinha dezoito anos e Paul Anka quinze (I’m so young and you’re so old / This, my darling, I’ve been told).
O sucesso foi instantâneo e Anka virou a coqueluche do público adolescente. Nos anos seguintes, Paul Anka continuou alimentando seu público com sucessos como You Are My Destiny, Put Your Head on My Shoulder e Puppy Love, entre outras, mas com o tempo foi percebendo que aquele filão um dia se esgotaria e que era necessário trilhar outros caminhos.
Foi com esse propósito que começou a compor músicas para o cinema (por exemplo, o épico de guerra O Dia Mais Longo da História), para a televisão (o tema de The Tonight Show) e para outros cantores. She’s a Lady, um dos maiores sucessos de Tom Jones é uma música de Paul Anka.
Foi assim, com os ouvidos de um negociante, que Paul Anka ouviu Comme d’Habitude. Anka depois declarou que achou a gravação uma titica, mas viu possibilidades na música. Por isso, foi para Paris negociar os direitos internacionais da música. Conseguiu um excelente acordo. Os direitos lhe foram cedidos a custo zero (outros dizem que Anka pagou um dólar).
A primeira vista, pode parecer estranho alguém ceder os direitos de publicação de uma música a custo zero. Mas não é tão raro assim. Pelos regulamentos de direitos autorais válidos em grande parte do mundo, quando uma música é tocada na mídia, um valor é pago. Metade desse valor vai para o detentor dos direitos da música. A outra metade para os compositores. O cantor e a gravadora não recebem nesse caso. A lei admite que eles já se beneficiam da divulgação, que pode render contatos para shows, no caso do cantor, e resultar em venda, para o disco.
Os autores devem ter raciocinado que as possibilidades comerciais da música na França estavam esgotadas e que ainda poderiam obter lucro dos 37,5% dos royalties de uma eventual versão internacional. Isso porque Anka, ou quem quer que fizesse a letra, em inglês ou outra língua, também iria morder a parte dos compositores.
Uma tentativa prévia de versão da música já tinha ocorrido. O empresário de um jovem e desconhecido músico inglês, chamado David Bowie, lhe pediu pra fazer uma versão da música. Bowie fez Even a Fool Learns to Love. Mas o empresário não gostou e a versão foi arquivada. Com toda razão, acrescentou Bowie anos depois. Na sua fase Ziggy Stardust, Bowie usaria fragmentos desse seu esforço na canção Life in Mars.
Quando Paul Anka voltou para os Estados Unidos não tinha a menor ideia do que fazer com aquela canção. Assim, colocou-a em uma gaveta e dedicou sua atenção a outros assuntos, esperando que alguma inspiração por fim surgisse. A oportunidade veio quando ele foi convidado por Frank Sinatra para jantar.


Pequenas Histórias das Canções – Come Together

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 5 de dezembro às 12:53


Em outubro de 1960 Timothy Leary, professor de psicologia da Universidade de Harvard partiu rumo à Cuernavaca, México. Leary queria experimentar cogumelos alucinógenos. A experiência foi transcendental. Leary afirmou, anos depois, que em cinco horas aprendeu mais sobre a mente humana do que nos 15 anos de estudos e pesquisas em psicologia. E vejam que Leary era autor de alguns dos textos mais apreciados, na época, no campo da psicologia.
Leary decidiu prosseguir com seus experimentos com drogas alucinógenas e terminou demitido de Harvard. Oficialmente, por negligenciar suas obrigações como professor. Quando a onda do LSD surgiu, Leary foi um dos primeiros a surfar, tornando-se um dedicado pregador de suas virtudes como uma substância fundamental para expandir os limites da mente.
Em 1969, Leary, já então morando na Califórnia, decide se candidatar ao governo do estado, enfrentando Ronald Reagan. Naquele mesmo ano, no dia primeiro, John Lennon organiza um dos seus bed-in no 19º andar do Queen Elizabeth Hotel, in Montreal. Em um bed-in, Lennon e Yoko Ono ficavam alguns dias esparramados em uma cama com o objetivo de chamar a atenção para sua campanha contra as guerras, eram entrevistados por jornalistas e recebiam algumas figuras proeminentes que iam lhes dar apoio.
No bed-in de Montreal, Tomothy Leary e sua mulher estavam presentes e chegaram a participar do coro da canção Give Peace a Chance. No dia seguinte, Leary pediu a Lennon uma música que pudesse usar na sua campanha para governador. O lema da campanha era Come together. Join the party. A palavra party aqui tinha um duplo sentido, já que tanto podia se aplicar a um partido como a uma festa. Um trocadilho intencional. Leary queria dizer que a vida era uma festa que precisava ser usufruída.
Lennon aquiesceu e em pouco tempo criou os verso Come together right now / Don’t come tomorrow / Don’t come alone / Come together right now over me / All I can tell you is you gotta be free. Algo como Venha junto agora mesmo / Não venha amanhã / Não venha só/ Venha junto agora mesmo, comigo / Tudo que eu posso lhe dizer é que você tem que ser livre.
John Lennon gravou o tema em uma fita demo e a mandou para Timothy Leary. A campanha para o governo nunca chegou a deslanchar. Pouco tempo depois, Leary foi preso, acusado de posse de drogas. Lennon resolveu não desperdiçar o tema. Deu uma nova feitura à letra e nasceu Come Together, a última música gravada para o álbum Abbey Road (que foi o último álbum dos Beatles a ser gravado, embora não o último a ser lançado), mas escolhida para ser a faixa de abertura. Ou seja, Come Together foi a última música que os Beatles gravaram.
Leary, na prisão, ficou surpreso e algo decepcionado quando ouviu o seu tema de campanha transformado em uma faixa comercial dos Beatles. Leary reconheceu que tanto a música quanto a letra estavam bem melhores, mas fez Lennon saber que estava desapontado. A resposta de Lennon foi irretocável. Lennon disse que o caso era semelhante ao de um alfaiate a quem um cliente encomendara um terno, mas que nunca aparecera para buscá-lo. Então, ele o vendera para outro freguês.
Falando sobre os Beatles, Leary afirmou: Os Beatles são o protótipo de uma nova raça de homens livres felizes: agentes revolucionários, mandados por Deus e dotados de uma força misteriosa capaz de criar uma nova espécie humana. Sem dúvida, uma frase digna de uma mente expandida bem além dos seus limites normais.
A letra de Come Together é John Lennon sendo John Lennon. Versos que se sucedem de modo surrealista, sem encadeamento lógico, que às vezes parecem mais guiados pela sonoridade das palavras do que pelo seu significado. Algo que Lennon já vinha fazendo desde Strawberry Fields Forever e também nos seus livros (Um Atrapalho no Trabalho e Com Sua Própria Letra). Lennon já tinha abordado a sua visão peculiar do mundo em Strawberry Fields Forever (No one I think is in my tree, You know I think it’s high or low).

Sobre os Beatles, Leary afirmou: Os Beatles são o protótipo de uma nova raça de homens livres felizes: agentes revolucionários mandados por Deus e dotados de uma força misteriosa, capaz de criar uma nova espécie humana. A frase é o exemplo acabado de uma mente expandida bem além dos limites normais.
Como acontece nesses casos, especulações sobre o significado dos versos sempre aparecem. Alguns analistas das letras dos Beatles ensaiaram interpretar algumas estrofes. Algumas guardam certa lógica. Por exemplo, He got O-no sideboard /He one spinal cracker (Ele tem aparador O-no / ele um quebra-espinha) pode, de fato, ser referência a Yoko Ono e seu hábito de interferir em suas entrevistas e atividades e de ficar de pé, descalça, sobre suas costas, em uma técnica oriental de massagem.
Mas é menos claro que He got monkey finger / He shoot Coca Cola (ele tem dedos manchados / Ele se injeta Coca Cola ) seja uma referência a Ringo, que Got to be good looking because he’s so hard to see (Tem que ser bonito porque ele é tão difícil de se ver) seja relativo a Paul e que Holy roller (santo enrolador) seja uma alusão a George Harrison e seu misticismo.
O certo é que a frase old flat top foi extraída de uma antiga música de Chuck Berry, como o próprio Lennon comentou na época. O que lhe valeu, em 1973, um processo por plágio. Lennon defendeu-se dizendo que usou a frase como uma reminiscência da juventude e que a música nada tinha em comum com a de Chuck Berry. Mas, para evitar uma pendência judicial, fez um acordo com a editora, comprometendo-se a gravar três músicas do catálogo deles. Cumpriu a promessa, com You can’t catch me (a música de onde a frase foi extraída) e Sweet Little Sixteen, ambas de Chuck Berry, no disco Rock’N’Roll e Ya Ya, de Lee Dorsey, em Walls & Bridges.
A BBC vetou a Come Together durante certo tempo, por conta da referência explícita à Coca Cola, o que afrontava as diretrizes da empresa. A música resistiu bem ao teste do tempo. Nos tempos atuais, de músicas acessadas por streaming em plataformas como o Spotfy, Come Together é a música dos Beatles mais requisitada.


Pequenas Histórias das Canções – Canção da América

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 28 de novembro às 00:11


Milton Nascimento tem uma das mais belas vozes do Brasil, embora já seja claro o desgaste do tempo. A voz do Milton Nascimento jovem foi, na minha opinião, a mais bonita de todas as vozes brasileiras. Entretanto, mesmo com essa voz excepcional, o cantor nunca teve uma aceitação popular correspondente.
É que a música de Milton nunca teve um apelo fácil. Ele não tem nenhuma A Banda, nenhuma Alegria, Alegria, nenhuma música reconhecível e cantada aos primeiros acordes. A sua música é requintada, nem sempre se revelando à primeira audição. Por outro lado, recompensa com juros quando alguém lhe dá a atenção e a dedicação de que necessita.
Por ter uma voz tão bonita, Milton logo mereceu que discos seus fossem lançados nos Estados Unidos. Um crítico americano escreveu que não era preciso se conhecer uma única palavra em português para se emocionar com a música de Milton. Mas lá, como cá, não se tornou um cantor das multidões, mesmo com algumas canções sendo vertidas para o inglês.
Até no seu período de maior sucesso, entre o surgimento com Travessia, em 1967 e o Clube da Esquina 2, em 1978, Milton era um artista do grupo “que dão prestígio”, como os donos ou gerentes das gravadoras classificavam. Isso queria dizer artistas que as gravadoras contratavam por conta da aura de qualidade que os cercavam, mas que não eram grandes vendedores.
Tanto é que, em 1975, Milton Nascimento precisou da ajuda dos amigos Caetano Veloso e Chico Buarque para sair de uma enrascada financeira. Enganado por seu empresário, que se apropriou do seu dinheiro, Milton Nascimento se viu em dificuldades para pagar as prestações de um apartamento que tinha comprado.
Maurício Tapajós, diretor da Sombras, uma organização para defesa dos direitos dos músicos, coordenou um show no Canecão que recebeu o título Milton Buarque Veloso. O show foi um grande sucesso. Na ocasião, Tapajós declarou que a Sombras “saberia dar um destino justo ao dinheiro.” O destino justo foi justamente a quitação do apartamento de Milton, sendo que Chico Buarque e Caetano Veloso abriram mão de qualquer cachê.
Interessante é que mesmo sem ser um artista de grande apelo popular, Milton Nascimento tem duas canções que se tornaram icônicas. Uma delas é Coração de Estudante, que foi nosso assunto na semana passada. A outra é Canção da América.
A base de Milton, quando nos Estados Unidos, era Los Angeles. Foi lá que ele travou conhecimento com Ricky Fataar, um baterista da África do Sul. Ficaram amigos, e Ricky muitas vezes saiu com Milton pela cidade. Um comentário recorrente entre eles era como a cidade de Los Angeles, dominada pelos carros, dificultava o contacto entre as pessoas e como, principalmente na profissão deles, amizades e separações ocorriam, no vaivém dos compromissos profissionais. Ricky cantou para Milton uma canção que falava sobre essas amizades e separações
Quando Milton voltou, em 1979, à Los Angeles, procurou seu amigo Ricky e foi informado de que ele não estava mais por lá. Decepcionado, escreveu uma música, com letra em inglês, a que batizou de Unencounter, uma palavra que não existe em inglês, mas cujo sentido podia ser facilmente inferido, como desencontro. A música foi lançada no disco Journey to Dawn, lançado naquele mesmo ano no mercado americano. A repercussão do disco foi pequena. O crítico musical Richard Ginell elogiou o disco, mas destacou que o disco “era muito exótico para o público americano em uma época dominada pela dance-music”.
A letra em inglês diz: Por que você também deixou esta cidade, meu amigo? Você se lembra daquela canção? A canção que você cantou para mim, perguntando pelos amigos que foram embora? Você não viu, mas eu chorei, porque era a minha hora de ir. Você estava tão triste e eu não sabia o que fazer, exceto ir com uma canção. Você se lembra daquela canção, meu amigo? Eu me lembro de você dizendo talvez essas pessoas estejam procurando pelo seu lugar. Talvez o tempo não seja agora, mas você não entenderia, porque agora era o seu tempo de ficar. Mas tudo sempre continua. Agora você deixou a cidade e eu estou aqui, procurando você.
O grupo 14 Bis quis gravar a música. Fernando Brant, parceiro de longa data de Milton, fez a letra em português. Brant manteve-se fiel à ideia original de Milton, daí o título Canção da América, que parece sem sentido para muita gente. Mas, enquanto a letra original de Milton é específica, praticamente descritiva de uma ocasião, a letra de Brant parte desse ponto (Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, assim falava a canção que na América ouvi), para se tornar uma ode à amizade de um modo amplo.
Depois do 14 Bis, a música foi gravada pelo próprio Milton Nascimento (álbum Sentinela – 1980), Elis Regina (Saudades do Brasil – 1980). Pouco a pouco, a celebração da amizade da letra de Fernando Brant foi despertando a atenção das pessoas, e a canção virou uma favorita em ocasiões como festas de formatura, onde pessoas que conviveram durante alguns anos vão tomar novos rumos em suas vidas, particularmente através do verso Pois seja o que vier, venha o que vier / Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar/ Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.
A música era a favorita de Ayrton Senna, que foi amigo de Milton Nascimento. Milton ganhou, de presente, um dos capacetes de Senna. Foi por isso que a música foi executada pelas emissoras de televisão na cobertura do funeral do corredor e usada na trilha sonora de um documentário sobre Ayrton Senna.


Pequenas Histórias das Canções – Coração de Estudante

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 20 de novembro às 17:53


Foi no dia 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro. Estudantes protestavam, reclamando da má qualidade da comida servida no Calabouço, um restaurante subsidiado pelo governo. A polícia chegou para conter a manifestação. Algumas pedras foram atiradas na direção dos policiais. Um disparo de fuzil foi a resposta. Em um átimo, a bala matou Edson Luis de Lima Souto, um obscuro estudante secundarista e, ao mesmo tempo, criou um personagem que entrou para a história, ainda que involuntariamente.
Edson Luis era um adolescente de 16 anos, sem militância política, que fazia refeições no Calabouço por necessidade, como quase todos os demais. Elio Gaspari, que fez refeições lá entre 1960 e 1962, escreveu que a comida era tão ruim que nem ao mais devotado militante seria exigido a sacrifício de ter que fazer suas refeições lá apenas com fins de proselitismo.
Os estudantes se apoderaram do corpo de Edson Luis e, erguendo-o sobre as cabeças, o transportaram para a Assembleia Legislativa, não muito longe do Calabouço, enquanto outro agitava sua camisa ensanguentada como se fosse uma bandeira. A notícia do assassinato de Edson rapidamente comoveu o país, principalmente o Rio de Janeiro.
No seu sepultamento, no dia seguinte, entre a sede da Assembleia Legislativa e o cemitério São João Batista, aglomeraram-se cinquenta mil pessoas. As manifestações públicas eram proibidas, mas não missas de sétimo-dia. Só na jurisdição do Iº Exército, cuja sede era o Rio de Janeiro, mais de 119 missas foram programadas. A maior delas na Candelária, celebrada pelo bispo auxiliar, coadjuvado por quinze padres.
Dentro da igreja, uma multidão. Do lado da fora, soldados da cavalaria. Os fiéis tiveram que sair por uma pequena porta, em fila indiana, protegidos por uma barricada formada por sacerdotes de mãos dadas. Em 1968, a repressão seguia numa ascendente.
A morte de Edson Luis também tocou Milton Nascimento e o pessoal do Clube da Esquina. Milton e Ronaldo Bastos compuseram a música Menino, movidos pela tragédia. Quem cala sobre o seu corpo / Consente na sua morte / Talhada a ferro e fogo / Na profundeza do corte / Que a bala riscou no peito / Quem cala morre contigo / Mais morto que estás agora / Relógio no chão da praça / Batendo, avisando a hora / Que a raiva traçou no tempo / No incêndio repetido / O brilho do teu cabelo / Quem grita vive contigo.


A música, composta em 1968, só foi gravada em 1976. Márcio Borges, no livro Os Sonhos Não Envelhecem, explica que a música era cantada entre eles, do Clube da Esquina, mas que ninguém se animava a gravá-la, para não parecer oportunista. Quando Milton, e depois Elis Regina, a gravaram, já ninguém correlacionou a música com a morte de Edson Luís.
Corte para 1981. Sílvio Tendler planeja um documentário sobre João Goulart e pede a Milton Nascimento músicas que possa usar no filme. Milton manda Tema de Che e San Vicente. O documentário vai ganhando corpo lentamente. Nessa época, os movimentos de resistência armada estavam desbaratados e os atos violentos eram mais raros. Mas ainda vivíamos a ditadura, e Jango era um assunto incômodo. As fontes oficiais de financiamento estavam fechadas para Tendler.
Quando, finalmente, o copião ficou pronto, Tendler o exibiu para Wagner Tiso, amigo de infância de Milton Nascimento. Foi uma longa sessão, de quase cinco horas. Finda a exibição, Tendler pediu a Tiso que compusesse alguns temas originais. Tiso aceitou a incumbência e compôs três peças: Tema de Jango, Valsa da Central e Samba de Brasília. O Tema de Jango tocava em passagens centrais do filme, como o enterro de Getúlio Vargas (de quem Jango era ministro da Justiça), na fuga do ex-presidente para o exterior e, finalmente, no enterro do próprio Jango.
O filme foi inscrito no Festival de Gramado de 1984, mas havia o receio de a censura proibi-lo. Tendler foi aconselhado a fazer uma pré-estreia para profissionais da imprensa, que gerasse notícias e dificultasse uma posterior censura. A estratégia deu certo. O filme foi um sucesso em Gramado e Milton e Tiso abocanharam o Kikiko de melhor trilha sonora.
Foi na pré-estreia que Milton ouviu pela primeira vez os temas instrumentais que Tiso fizera para o filme. Empolgou-se com dois e decidiu por letras neles. Foi assim que o Tema de Jango virou Coração de Estudante e a Valsa da Central se tornou Um Caso de Amor.
Por algum motivo, a tragédia de Edson Luís veio de novo à mente de Milton Nascimento e as imagens do enterro serviram de ponto de partida para a letra de Coração de Estudante. Mas, como explicou Wagner Tiso, a canção foi composta em tom maior. Tons maiores são usados em temas alegres, de celebração. Os tons menores são usados quando se quer passar sentimentos de tristeza, de melancolia.
Wagner havia escolhido um tom maior, mesmo usando a música em cenas tristes do documentário Jango, porque quis transmitir um sentimento de esperança. O que terminou sendo decisivo. Pois enquanto música e a letra de Menino expressam um lamento, a de Coração de Estudante é um hino à esperança de dias melhores.
Pouco tempo depois de ser lançada, a versão com a letra de Milton Nascimento tornou-se um hino do movimento das Diretas Já, sendo cantada pelas multidões nos comícios. A emenda pelas eleições diretas para presidente foi derrotada. Mas a ditadura já estava com seus dias contados. No colégio eleitoral, Tancredo Neves, o candidato da oposição, derrotou Paulo Maluf, apoiado pelos militares.
Uma trapaça do destino fez com que Tancredo adoecesse gravemente na véspera de sua posse e falecesse no dia 21 de abril, uma data simbólica. Coração de Estudante era uma das músicas favoritas de Tancredo. Durante o seu velório, em Brasília, e depois no seu traslado, até São João Del-Rey, as redes de televisão usaram versões instrumentais de Coração de Estudante como música de fundo. Como depois comentou Wagner Tiso, a música foi ouvida no funeral de três presidentes: Getúlio Vargas e João Goulart, no documentário de Silvio Tendler, e, via redes de televisão, no de Tancredo Neves.

 


Geraldo Azevedo e Alceu Valença – O Difícil Começo (Final)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 30 de outubro às 21:40


Alceu conseguiu convencer Geraldo Azevedo para o retorno às lides musicais e começaram uma maratona de shows, para públicos pequenos. Conseguiram, às duras penas, um contrato para gravar um disco pela gravadora Copacabana. Apesar do nome da gravadora, o estúdio de gravação era em São Paulo, para onde viajavam nos fins de semana, dormindo em apartamentos de amigos, às vezes dividindo, os dois, o mesmo sofá.
O disco passou em branco. Aí, foi a vez de Alceu Valença pensar em largar tudo e voltar para criar galinhas em São Bento do Uma. Mas logo desistiu de desistir. Resolveram tentar outro caminho. Sérgio Ricardo tinha idealizado, pouco antes, o Disco de Bolso do Pasquim. O projeto, respaldado pelo semanário O Pasquim, então em fase muito popular, consistia no lançamento de um disco compacto com um artista famoso em um lado e um iniciante do lado oposto. Já tinham sido lançados os discos com Tom Jobim e João Bosco (então iniciante) e Caetano Veloso e Fagner.
Alceu Valença e Geraldo Azevedo tinham a expectativa de ser uma opção para o lado B do próximo Disco de Bolso. Foi com essa esperança que foram procurar Sérgio Ricardo. Assim que Sérgio Ricardo olhou para Alceu Valença, exclamou: “Você vai ser o Espantalho!” Alceu não entendeu nada: “Espantalho? Eu?”.
É que Sérgio Ricardo conversava com um amigo sobre a retomada de um antigo projeto cinematográfico, chamado A Noite do Espantalho e a figura exótica de Alceu preenchia seus requisitos. O almejado Disco de Bolso jamais saiu, mas o filme sim. Geraldo Azevedo também foi contratado para fazer um papel secundário e para trabalhar como diretor musical. Foi para esse papel que Geraldo deixou crescer a barba, que nunca mais tirou.
Como a locação do filme programada para Fazenda Nova, lá se foram Geraldo e Alceu, em pleno 1973, de volta para Pernambuco. Um fato curioso: Alceu e Wilson Moura, outro ator com um papel importante, não se entenderam durante as filmagens. Naquele período havia um programa de aproximação entre os Estados Unidos e o Brasil, com a criação de estados-irmãos.
O Rio Grande do Norte, por exemplo, tinha o Maine como seu estado-irmão. O estado-irmão de Pernambuco era a Georgia e, coincidindo com o final das filmagens, havia uma delegação americana visitando o estado. Em um gesto de cortesia, a delegação americana ofereceu um almoço à equipe cinematográfica. Durante o almoço, Wilson tentou fazer as pazes com Alceu, que não aceitou. Houve um bate-boca que logo degenerou em uma franca troca de sopapos. Tudo isso na frente do atônito governador da Georgia e futuro presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.
Mas este breve retorno de Geraldo e Alceu para Pernambuco teve profundas repercussões na música, principalmente na de Alceu Valença. Como conta José Teles, no seu livro Do Frevo ao Manguebeat, foi quando Alceu conheceu uma música de Lailson Ferreira, chamada Alagoas. A música, feita como uma brincadeira, misturava ritmos nordestinos com o rock. Para Alceu, foi uma revelação. Foi a partir daí que ele plugou a guitarra e eletrificou a música nordestina.
Entusiasmado, compôs um forrock (Vou danado pra Catende), recrutou os melhores músicos que conseguiu em Pernambuco (Robertinho do Recife, Lula Côrtes, Ivinho, Zé Ramalho, Zé da Flauta e Paulo Rafael) e inscreveu no Festival Abertura. A música impressionou os jurados pela originalidade embora não tenha levado o primeiro prêmio. A música deu prestígio e rendeu um contrato com a gravadora Som Livre para Alceu, mas as vendas foram modestas.
Os tempos difíceis ainda não tinham terminado. Principalmente para Geraldo. Geraldo também conseguiu algum sucesso e emplacou uma música, Caravana, na trilha sonora da novela Gabriela. Mas aí a repressão mostrou de novo a sua cara. Geraldo foi outra vez preso, por sua militância contra a censura. A prisão foi mais curta, menos de duas semanas, mas desta vez ele foi duramente torturado. Ao contrário do que aconteceu na primeira prisão, dessa vez o efeito sobre o compositor foi o de fortalecer a sua determinação de seguir o seu caminho como músico.
Enquanto isso, decepcionado com sua carreira no Brasil, Alceu resolveu tentar a sorte em Paris. Conseguiu marcar alguns shows, um dos quais recebeu uma crítica favorável no Le Monde. Alceu resolveu uma estratégia que já tinha usado no Brasil. Fez fotocópias da matéria e, junto com a namorada e Paulo Rafael, saltavam as catracas do metrô para distribuir as cópias, promovendo o show.
Findaram presos por panfletagem ilegal. A namorada de Alceu tentou dar uma carteirada, brandindo a sua ascendência norte-americana. O resultado foi que Alceu e Paulo logo foram liberados enquanto que ela teve que curtir um período mais prolongado no xilindró.
Alceu também foi para Montreux, tentar uma colocação no famoso festival de jazz. Foram barrados. O mesmo aconteceu no Festival de Lyon. Mas aí Anelisa, a tal namorada de Alceu, teve uma ideia. Pediu a cada músico contratado para ceder um minuto do seu tempo. Somando todos os minutos cedidos, conseguiu quarenta e cinco minutos para Alceu.
No final de 1979, Alceu desistiu de sua carreira europeia. Até porque não aguentava mais tanta comida brasileira. Segundo ele, quase todo dia recebia um convite para almoçar com um brasileiro. E, dizia, quando um brasileiro que mora no exterior convida outro para almoçar, o cardápio é quase imutável: feijoada e caipirinha.
Alceu voltou em boa hora. Em 1980, com um novo contrato pela Ariola, conseguiu um sucesso marcante com Coração Bobo, inspirada por Jackson do Pandeiro, sempre uma referência importante na música de Valença. O disco seguinte marcou de vez a passagem de Alceu para o time dos grandes vendedores. O disco Cavalo de Pau vendeu um milhão e meio de cópias, puxado pelos sucessos de Tropicana e de Como dois animais. Alceu se tornava o músico pernambucano mais bem sucedido de sua geração.
Geraldo Azevedo também se firmou. Nunca fez o mesmo sucesso de Alceu, em termos de vendagens, mas músicas como Dia Branco, Dona da minha cabeça, Bicho de sete cabeças, Moça bonita e outras são parte permanente do cancioneiro brasileiro. Os tempos de vacas magras ficaram para trás. E embora sigam carreiras independentes, a amizade entre eles permanece. Com um encontro para comemorar, de vez em quando.

 


Geraldo Azevedo e Alceu Valença – O difícil começo (parte I)

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 23 de outubro às 19:08


As personalidades e as origens sociais de Geraldo Azevedo e de Alceu Valença são bastante diferentes. Mesmo assim, suas carreiras convergiram em diversos pontos de suas vidas.
A música começou primeiro para Geraldo Azevedo. Nascido em 1945 no distrito de Jatobá, município de Petrolina (PE), já aos cinco anos de idade dedilhava um violão rústico, construído pelo próprio pai.
Na adolescência, a bossa nova entra na sua vida. Nada surpreendente. Tudo o que separa Petrolina de Juazeiro, Bahia, a terra de João Gilberto é o rio São Francisco e o grande sucesso de João Gilberto naturalmente repercutiu fortemente na cidade vizinha. Em pouco tempo, Geraldo apresentava o programa Por Falar em Bossa Nova na rádio local e era convidado para o grupo Sambossa.
Aos dezoito anos, mudou-se para Recife. O objetivo era fazer o curso científico e, depois, o vestibular de arquitetura, trabalhando em escritório como desenhista. Mas a música prosseguia seu trabalho de sedução e, aos poucos, Geraldo foi se envolvendo no meio musical de Recife. E, na medida em que aperfeiçoava seus dotes de violonista, mais enredado ia ficando.
Participa dos grupos Construção e Raiz. O Construção era um grupo musical, do qual participavam também Naná Vasconcelos e Teca Calazans, essa última uma grande pesquisadora do folclore. Já o Raiz reunia pessoas do teatro, literatura e música. Algumas dessas pessoas eram também do MCP (Movimento de Cultura Popular), um precursor dos Centros de Cultura da Popular da UNE, um foco de resistência à ditadura.
A primeira música que Geraldo concluiu foi o frevo Aquela Rosa, uma parceria com Carlos Fernando. A música venceu a primeira Feira Musical do Nordeste e chamou a atenção para ele. Dentre as pessoas que tiveram sua atenção despertada estava a cantora Eliana Pittman.
Em temporada no Recife, a cantora convidou Geraldo para ser parte de sua trupe. Ele não se entusiasmou, mas os amigos insistiram que era uma grande oportunidade, se cotizaram para ajudá-lo na mudança e lá se foi Geraldinho para o Rio de Janeiro.
Mas as diferenças entre as visões musicais dos dois era grande e o violonista ficou apenas oito meses com Eliana. Um tempo de vacas ainda mais magras estava começando. Airton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos, o acolheu em seu apartamento. Geraldo chegou a tocar com o quinteto, mas a música clássica não era mesmo a sua praia.
Em 1968, Geraldo Vandré formou o Quarteto Livre e convidou Geraldo Azevedo para participar. O quarteto era formado por Geraldo, Naná Vasconcelos, Nelson Ângelo e Franklin da Flauta. Geraldo chegou a iniciar uma parceria com Vandré na música Canção da Despedida. Mas no final do ano veio o AI-5 e a repressão militar intensificou-se. Vandré, Caetano, Gil, Chico Buarque, Carlos Lyra e muitos outros artistas optaram por deixar o país no ano seguinte. A música seria concluída por Vandré no exterior.
Geraldo Azevedo ficou e voltou a trabalhar como desenhista. Apesar de sua amizade com militantes da esquerda e sua participação em reuniões clandestinas, cujo objetivo principal era a luta contra a censura, ele nunca fora filiado a organizações políticas e tinha posição contrária ao enfrentamento do regime militar pelas armas.
Mesmo assim, Geraldo e sua mulher foram presos durante 41 dias na Ilha das Flores e liberados sem que nenhuma acusação formal fosse formulada. O impacto psicológico da prisão foi tamanho que Geraldo resolveu desistir da profissão de músico. Dedicou-se ao seu emprego como desenhista. A música era página virada.
Foi aí que apareceu Alceu Valença. Ele e Geraldo mal tinham se conhecido enquanto moravam no Recife. Agora, recém-chegado ao Rio, Valença estava disposto a enfrentar uma carreira como músico e queria a colaboração do conterrâneo.
Alceu Valença nasceu em São Bento do Uma, em 1946. Nunca passou privações financeiras. Seu pai era fazendeiro e tinha uma pequena indústria de laticínios e era uma figura socialmente importante. Um ex-deputado constituinte. As primeiras ligações de Alceu com a música foram com cantadores, repentistas e sanfoneiros. Além do rádio.
Mas enquanto a família de Geraldinho incentivava o seu interesse pela música, o pai de Alceu não era nada encorajador. Para ele, a profissão de artista era “para bêbados e desocupados”. Desse modo, só aos 15 anos Alceu ganhou seu primeiro violão. Um presente da mãe, às escondidas do pai. O segundo violão foi presente de um primo, advogado. Um Di Giorgio de primeira linha. Um cliente lhe oferecera o violão para quitar uma dívida.
O presente aguçou o apetite de Alceu pela música, e ele passou a estudar com afinco. Mas não era fácil vencer a resistência paterna e Alceu começou a trabalhar como jornalista – deixou quando veio a exigência de diploma – e passou no vestibular de direito. Foi como estudante de direito que surgiu a chance de um estágio de três meses em Harvard.
Alceu foi, mas seu interesse no curso era mínimo. Um completo desconhecido, deixou de lado a timidez e foi para as praças frequentadas por hippies e, violão em punho, pôs-se a tocar baiões, cocos, maracatus e o que mais lhe viesse à cabeça. Chegou a ganhar uma simpática matéria em um jornal local que o chamava de “Bob Dylan brasileiro”.
O curso em Harvard não contribuiu em nada para o futuro advogado. Só fez reforçar a convicção que seu futuro estava na música. Não era fácil para Alceu se enturmar no meio musical do Recife. Para a turma conservadora, Alceu, cabeludo e barbudo, só podia ser um drogado. Para os adeptos do barato, um cara que não usava droga nenhuma, não tinha outra classificação: um careta.
Sem muito espaço no Recife e com o país ainda vivendo a era dos festivais, Alceu decidiu partir para o Rio de Janeiro. E lá procurou o desencantado Geraldo Azevedo. Alceu não se deu por vencido quando Geraldo lhe contou que estava desistindo da música. Lembrou Geraldo de um encontro fugaz que tiveram, quando ele ainda estava no Recife, mostrou suas composições, elogiou o trabalho dele. Sua insistência foi tamanha que, mesmo relutante, Geraldo concordou em tentar outra vez.

 

 

A parceria entre Geraldo Azevedo e Vandré resumiu-se a esta música. O exílio de Vandré interrompeu a colaboração.


Pequenas Histórias das Canções – O Filho Que Eu Quero Ter

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 2 de outubro às 21:21


A canção começou a nascer na praia de Boa Viagem, em Recife. Toquinho mostrou a Vinicius uma nova música. De passagem, comentou que a música, de andamento lento, tinha sido inspirada na vontade, que acalentava, de um dia ter um filho. Vinicius incentivou o parceiro, falando da beleza que é ter filhos. Toquinho deu um até logo ao parceiro e foi curtir a praia, a água de coco e os demais atrativos da praia recifense, deixando Vinicius às voltas com a música.
Quando Toquinho retornou, horas depois, encontrou o parceiro chorando, com uma letra longa, concluída, que não apenas se mantinha dentro do tema que o parceiro havia proposto, mas o desdobrava. A letra agora se estende por toda uma vida. Desde a fase em que sonha com o filho que ainda vai nascer, depois o vê crescer e se tornar um homem. Finalmente, quando já moribundo, é assistido pelo mesmo filho, que o acalenta com a canção com que fora ninado e fala do filho que ele mesmo pretende ter. O ciclo da vida continua.
É comum a gente sonhar, eu sei/Quando vem o entardecer/Pois eu também dei de sonhar/ Um sonho lindo de morrer/Vejo um berço e nele eu me debruçar/com o pranto a me correr/E assim, chorando, acalentar/O filho que eu quero ter/Dorme, meu pequenininho/Dorme que a noite já vem/Teu pai está muito sozinho/De tanto amor que ele tem// De repente o vejo se transformar/num menino igual a mim/Que vem correndo me beijar/Quando eu chegar lá de onde vim/Um menino sempre a me perguntar/Um porquê que não tem fim/Um filho a quem só queira bem/E a quem só diga que sim/Dorme, menino levado/Dorme que a vida já vem/Teu pai está muito cansado/De tanta dor que ele tem// Quando a vida enfim me quiser levar/Pelo tanto que me deu/Sentir-lhe a barba a me roçar/No derradeiro beijo seu/E ao sentir também sua mão vedar/Meu olhar dos olhos seus/Ouvir-lhe a voz a me embalar/Num acalanto de adeus/Dorme, meu pai, sem cuidado/Dorme que ao entardecer/Teu filho sonha acordado/Com o filho que ele quer ter.
Toquinho disse, depois, que essa era uma das músicas preferidas de Vinicius. E que, apesar de ele ter sugerido o tema, Vinicius deve ter se inspirado muito mais nos filhos que ele já tinha do que naquele que Toquinho queria ter. Algum tempo depois, Toquinho foi pai de Pedro. Por sinal, o nome de um dos filhos de Vinicius.
O primeiro a gravar a música foi Chico Buarque, no disco Sinal Fechado, de 1974, onde Chico, acossado pela censura, gravou músicas oferecidas por seus amigos. Apenas Acorda, Amor era de sua autoria. Mas sob o pseudônimo de Julinho de Adelaide. Vinicius e Toquinho só gravaram a música no ano seguinte.

 

 


Melody Gardot, a Cantora Acidental

Em por Djacir Dantas
Atualizado em 25 de setembro às 22:12


Até os 19 anos, Melody Gardot nunca pensara em ser cantora profissional. Era uma estudante de moda, na Filadélfia, quando um acidente transformou a sua vida. Enquanto pedalava sua bicicleta, Melody foi atropelada por um motorista que avançou um sinal e fugiu do local, abandonando-a como morta.
Melody sobreviveu por pouco. Internada com múltiplas contusões cerebrais e fraturas na pelve e na coluna vertebral, ficou onze meses internada. Os problemas neurológicos eram graves. A memória recente foi comprometida. Melody esquecia fatos ocorridos minutos antes. Ao mesmo tempo, sofria de afasia. A afasia é um comprometimento da linguagem, que pode afetar tanto a compreensão (a pessoa não entende o que ouve) ou a expressão (não consegue dizer o que pretende).
A combinação da afasia com o comprometimento da memória era catastrófica, do ponto de vista funcional. Além disso, lesões neurológicas adicionais, provocadas pelas fraturas da coluna causavam dores fortes e persistentes e limitação dos movimentos.
Melody afirma que o comprometimento da memória tinha o seu lado favorável. Como as memórias não duravam, o longo tempo de recuperação não lhe pesou nos primeiros meses, porque simplesmente ela não se lembrava, e assim não ficava angustiada nem antecipava o sofrimento.
Um médico sugeriu que Melody usasse a música como método terapêutico. Havia um problema importante. As contusões cerebrais também tornaram o seu cérebro muito sensível a estímulos, como a luz e o som. Melody não conseguia mais ouvir artistas de que antes gostava, como The Mamas & The Papas, porque não suportava a altura das músicas.
Foi quando um amigo lhe deu as gravações de Stan Getz na sua fase bossanovista. Melody ainda sentia incômodo com o saxofone de Getz, que às vezes achava áspero, mas se deliciou com a suavidade das vozes de João Gilberto e de Astrud Gilberto. Melody ouvia constantemente esses discos.
Mas a recuperação da linguagem e da memória seguia a passos lentos. Seu médico, informado de que, na infância e adolescência, Melody estudara piano, sugeriu que ela voltasse a tocar um instrumento.
O piano seria um instrumento muito difícil de lidar, face às limitações físicas que ela apresentava. Sendo assim, Melody adotou o violão, que ela podia dedilhar sem sair da cama. Os progressos logo ficaram evidentes. A coordenação dos movimentos, a articulação das ideias, a recuperação da memória iam ocorrendo na medida em que Melody ia procurando tocar e, pouco depois, a compor canções.
No início, Melody apenas solfejava algumas frases melódicas que improvisava, mas logo depois já começava a estruturar melodias mais complexas e a escrever letras para essas músicas. O gosto musical de Melody também tinha sofrido transformações. Antes da doença ela era fundamentalmente ligada à vertente pop. Agora, as músicas que compunha deviam muito mais ao jazz e ao blues, refletindo o que ela andava ouvindo.
Melody gravou um EP, mais como parte da terapia, a que chamou de Some Lessons: The Bedroom Sessions. Um amigo, sem seu conhecimento, levou as gravações para uma rádio da Filadélfia e as fitas começaram a ser tocadas, despertando comentários favoráveis.
Isso ajudou Melody a se convencer que tinha um futuro na música, e a encarar com seriedade os novos desafios. E seus desafios não eram pequenos. A sensibilidade à luz e aos sons continuava. Melody necessitava do uso contínuo de óculos escuros, que ainda usa a maior parte do tempo. Usava também um dispositivo para atenuar os sons, um TENS (um dispositivo de estimulação elétrica transcutânea) para aliviar a dor e uma bengala.
Uma cadeira especial, para ajudar a suportar as dores, era outro pré-requisito. Mas logo descobriu que a excitação e a emoção de estar em um palco, em frente a uma plateia, é um excelente analgésico. Nesses momentos, diz, a dor passa a ser mínima.
Em 2009 lançou o seu primeiro CD como profissional. O disco, My One and Only Thrill, com três indicações para o Grammy, recebeu ótima acolhida pela crítica, que logo a comparou à Laura Nyro, Madeleine Peyroux, Joni Mitchell, Eva Cassidy e Shania Twain.
Mas Melody não estava ali para ficar repetindo uma fórmula, mesmo que de sucesso. Seu disco seguinte, The Adsense (2012), produzido pelo brasileiro Heitor Pereira, ex-guitarrista do Simply Red, já incorporava influências latinas, principalmente brasileiras, mas também argentinas e portuguesas. A admiração dela pela música brasileira, tão importante na recuperação da cantora, persiste, e a trouxe ao Brasil, donde a inspiração para muitas das músicas.
Mas Melody permanece uma pessoa inquieta. O que se reflete no disco Currency of Man (2015), onde as músicas refletem um grau maior de preocupações sociais e deixam em segundo plano a cantora intimista. Parece que um progresso na sua condição física está se refletindo na sua música e na sua performance no palco.
Melody já ousa entrar no palco sem a bengala que usou tanto tempo e sem a cadeira especial. E o uso de músicas com andamento mais rápido e com naipe de metais pode indicar que o desconforto provocado por sons altos diminuiu. E a própria personalidade da cantora parece apontar para isso, que diz apreciar quando as pessoas dançam nos seus shows.
Enquanto os críticos apontavam para suas semelhanças com Madeleine Peyroux e Eva Cassidy, Melody aponta como artistas que admira nomes como Esperanza Spalding, Erykah Badu, Lianne de Haras e Hiromi Uehara, ou seja, nomes ligados às mudanças, não ao jazz mais tradicional.
Melody também patrocina uma instituição chamada Chateau Gardot, que, em sociedade com a Swedish Postcode Lottery, dedica-se a promover à musicoterapia, a que ela atribui papel fundamental na sua recuperação.
Melody Gardot é, hoje em dia, um nome estabelecido no jazz mundial. Mesmo com todas as limitações que a sorte lhe trouxe, vive a vida nômade comum a tantos artistas, ao ponto de dizer que não endereço fixo. E é uma prova viva de que a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se recuperar, pode, às vezes, ser muito surpreendente.

Melody Gardot – Baby I`m a Fool (2009) – Música que abre o disco de estreia

Melody Gardot – Mira (2012) – Influência da música brasileira

Melody Gardot – Preacherrman (2015) – Suportando melhor os decibéis ?