Tacanha do Norte (Capítulo 2) – Oxto

Em por Carlos Magno
Atualizado em 27 de março às 17:57


oxtox
Oxto acordou cedo como era habitual. Levantou-se e já às 07 horas da manhã e já se ouvia em alto em bom som a balbúrdia da feira do bairro do Manjericão.
Detergente de pia, carnes variadas e perfumes de baixa qualidade disputavam lado a lado as laterais da feira, que todos os Sábados enchia as ruas do bairro de cores, temperos e um imenso rastro de sujeira no final do dia.
Abriu os olhos, fixou o olhar na mancha de umidade que há anos esteve presente no teto, respirou fundo e deslizou quase escorregando para a lateral da sua barulhenta cama de molas.
Mudada a posição, o foco se alterava para a horizontal, e agora a mancha era a de vitamina de banana da parede amarelada. Este ritual de encaradas se prolongava por mais 3 minutos dando ânimo para a derradeira tentativa de se desvencilhar daquela cama que se empenhava em agarrar suas costas.

– Levanta, Oxto. Hoje o dia vai ser foda! –  Repetia todos os dias a mesma ladainha e se preparava para sair pro mundo.

Trabalhar entregando água em Tacanha era para fortes. As ruas em péssimas condições, trânsito caótico e calor insuportável eram apenas alguns fatores que contribuíam para o desânimo dos que acabaram nessa vida.
Muito trabalho, pouco reconhecimento e quase nenhum dinheiro eram o “prato do dia” para Oxto, que a cada quilômetro percorrido em sua Caloi Barra Forte aumentava ainda mais o desespero da situação.Tudo parecia normal até às 11:59 da manhã daquele Sábado.
O rebuliço na feira era geral e a gritaria mais ensurdecedora que o habitual. Da esquina Oxto avista sua mãe ajoelhada olhando para o céu com os olhos cheios de lágrimas.
Dona Emengarda era uma pessoa de fé, mas Oxto sabia que se passava algo muito grava para sua mãe se ajoelhar no portão de frente para a feira.
No meio de uma breve corrida em direção a sua mãe, reparou que dezenas de pessoas na lateral da feira faziam o mesmo num misto de histeria coletiva e medo.Os comerciantes mais espertos fecharam rapidamente suas portas antes dos saques começarem. Um festival de roubo de TVs, geladeiras, frutas, verduras e até carros cobriu o bairro de terror por alguns minutos, até a polícia intervir com bombas de gás e acalmar os ânimos. Bala de borracha e cassetete comiam soltos até nos que estavam ajoelhadas rezando. A confusão era de tal magnitude que em alguns instantes todos se esqueceram como tudo começou.Como se todos no Manjericão tivessem ensaiado, olharam para o alto e se se lembraram rapidamente o porquê do corre-corre.
A luz avermelhada que cobria o céu logo acima do mercado de peixe e um objeto estranho que pairava sobre o edifício refrescaram a memória de todos.
Com todos em silêncio se pôde ouvir o som constante e abafado que saía do objeto flutuante.
Era um som que Oxto nunca havia ouvido, mas sabia que aquilo estava falando com ele e sua vida finalmente estava prestes a mudar.
[continua]

Comentários

2 Respostas para “Tacanha do Norte (Capítulo 2) – Oxto”

  1. Debby

    Eu jurei escutar o vuco-vuco da feira e sentir o cheiro dos produtos. :)

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  2. Eucladia Marques

    Lembro das histórias contadas por meu pai só que focada no nosso dia-a-dia, com temperos de ficção! Genial!!!

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