100%

Em por Carlos Magno
Atualizado em 22 de julho às 20:08


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Há alguns anos comecei a fazer quadros utilizando uma técnica chamada “patchwork digital”, onde se trabalha “colagens” de texturas e elementos gráficos para formar o desenho final.
Quando fiz o primeiro, morri de vergonha de mostrar apara alguém porque na minha concepção estava horrível.
Tomei coragem e mandei para um amigo e para a minha surpresa ela achou FANTÁSTICO.
Aquilo pra mim era um 30% (e olhe lá, apesar de ter levado 12 horas de trabalho).
– Cara, isso está demais. Tem uma profundidade incrível e as cores estão muito bem feitas!
Eu quase caí para trás.
Eu não estava vendo meu próprio trabalho!
Tenho um problema de visão seríssimo que por causa de uma cicatriz na retina, só vejo por um dos olhos e com isso perdi a percepção de profundidade.
O trabalho que eu fiz e todo mundo adorou eu nunca consegui ver.
Depois deste dia eu nunca mais deixei de me orgulhar do meu trabalho. Nunca mais deixei de mostrar o que havia produzido.

Quantas e quantas vezes joguei trabalhos fora com medo de não corresponder ao mundo.#arrependimento

Eu nunca fui 100% em nada.
Nem em história, nem em matemática nem em biologia.
Nunca fui bom com desenho nem com texto… tão pouco programação.
Não sei NADA de fotografia e arte.

O grande problema (ou não), é que mesmo sem saber porra nenhuma eu fiz.
Fiz arte, fiz texto, fotografei e me meti em projetos que o meu 100% nunca seria o suficiente.

O perfeccionismo é um buraco sem fundo e se volta.
A cada dia que passa me deparo com pessoas que rotulam a si mesmas “perfeccionistas”. Acho um bocado engraçado a necessidade da busca do perfeito quando na verdade este conceito nada mais é do que algo puramente subjetivo.
O que está perfeito para João pode ser o caos aos olhos de Maria.
O trabalho que Joana fez durante horas e se orgulha do resultado tem grandes chances de ser reprovado pelo chefe ou pelo cliente.
O tão sonhado 100% é uma construção feita em cima das suas experiências e gostos pessoais. Um amontoado de referências que fazem você achar que está tudo certo, quando na verdade o “certo” é subjetivo, o bonito é subjetivo…assim como o bem e o mau são.
A busca por um perfeccionismo que “anda por aí” te deixa pensando cada vez mais em círculos e sempre à mercê do que outros produzem. O 100% tem sempre como base a perfeição dos outros.
São pontos de vista distintos sobre um assunto que possivelmente nunca será “perfeito”.

Para Sebastião Salgado as fotos Preto e Branco são o seu melhor. O seu 100%.
Ele calibra suas lentes, trata as imagens e para eliminar cores e fazer o seu trabalho perfeito (pelo menos para ele mesmo).
Se Steve McCurry analisar as fotos de Salgado vai automaticamente achar que faltam cores. O 100% de Steve SÃO CORES!.
São perfeições diferentes. São mundos diferentes e trabalhos completamente distintos de profissionais fantásticos.

Mas 90% também é muito bom. Não é vergonha nenhuma ter um trabalho 90%, ou até 72, 15, 25%.
Qualquer N% será X% na ótica alheia.

Adoro Picasso (sem trocadilhos) mas confesso que acho Miró “bobo”.
Tenho certeza que Miró sempre fez o seu melhor, Seu 100%, o seu máximo.
Infelizmente Miró, você não correspondeu ao meu seletor de perfeição.

Um mundo com menos frases hediondas como “Boa música”, “Bom vinho” e “bom filme” seria mais feliz.
Por que não trocar tudo isso por “Músicas, vinhos e filmes que eu gosto”?

Por isso, meu amigo(a), perfeccionismo de cu é rola!
O mundo é de quem faz, mesmo que não seja o SEU 100%./


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